O Equilíbrio do Psoas: Nem Encurtado, Nem Excessivamente Alongado
A discussão sobre o psoas no contexto do Yoga frequentemente se resume a uma frase: “precisamos alongar o psoas”.
No entanto, a literatura anatômica e biomecânica demonstra que o papel desse músculo é muito mais complexo — e que tanto o encurtamento quanto o excesso de alongamento podem comprometer a estabilidade lombopélvica.
Se buscamos uma prática sustentável, precisamos falar de equilíbrio funcional.
1. O Psoas Não É Apenas um Flexor de Quadril
O psoas maior origina-se nas vértebras lombares (T12–L5) e insere-se no trocânter menor do fêmur. Pela sua posição anatômica, ele:
-
conecta tronco e membros inferiores
-
influencia diretamente a posição da pelve
-
participa da estabilização dinâmica da coluna lombar
Estudos eletromiográficos demonstram que o psoas se ativa não apenas durante a flexão do quadril, mas também em tarefas posturais que exigem controle lombar (Andersson et al., 1995; Santaguida & McGill, 1995).
Ou seja: ele atua como estabilizador, não apenas como mobilizador.
2. O Problema do Encurtamento
Quando o psoas está hipertônico ou encurtado, pode:
-
aumentar a inclinação anterior da pelve
-
intensificar a lordose lombar
-
gerar compressão facetária posterior
-
contribuir para dor lombar
Alterações no equilíbrio muscular lombopélvico estão associadas a quadros de lombalgia crônica (Hodges & Richardson, 1996).
Nesse contexto, intervenções que reduzam tensão excessiva podem ser benéficas.
3. O Outro Extremo: Psoas Excessivamente Alongado
Menos discutido é o risco do excesso de alongamento.
A função muscular depende da relação comprimento-tensão.
Quando um músculo é mantido cronicamente em posição alongada, sua capacidade de gerar força estabilizadora pode diminuir (McArdle, Katch & Katch, 2015).
No caso do psoas:
-
alongamento excessivo pode reduzir sua eficiência na estabilização segmentar lombar
-
pode aumentar sensação de instabilidade
-
pode favorecer compensações por musculatura superficial
Em indivíduos com hipermobilidade, esse cenário é ainda mais relevante.
Estabilidade exige tensão adequada — não ausência de tensão.
4. Controle Motor e Estabilidade Profunda
A estabilização lombar depende da coordenação entre músculos profundos como:
-
transverso do abdome
-
multífidos
-
diafragma
-
assoalho pélvico
-
psoas
Hodges e Richardson (1996) demonstraram que indivíduos com dor lombar apresentam atraso na ativação do transverso do abdome, sugerindo que o problema não é apenas força, mas coordenação neuromuscular.
O mesmo princípio se aplica ao psoas:
não basta alongar ou fortalecer isoladamente — é necessário integrá-lo funcionalmente.
5. Implicações para o Ensino de Yoga
Em um cenário onde amplitudes extremas são valorizadas, é fundamental perguntar:
Estamos promovendo estabilidade antes de aprofundar mobilidade?
Se o psoas estiver:
-
encurtado → pode ser necessário liberar tensões excessivas
-
excessivamente alongado → pode ser necessário restaurar tônus e controle
O objetivo não é criar um músculo “mais solto” ou “mais forte”, mas um músculo funcionalmente equilibrado.
6. A Sabedoria Clássica: Sthira Sukham Asanam
O Yoga Sutra II.46 define asana como:
Sthira Sukham Asanam
Postura firme e confortável.
“Firme” implica sustentação.
“Confortável” implica ausência de esforço excessivo.
Essa definição está alinhada com a ciência contemporânea da estabilidade:
equilíbrio entre tensão suficiente para sustentar e suavidade suficiente para permitir adaptação.
Nem rigidez.
Nem frouxidão.
Mas organização.
Conclusão
O psoas não deve ser tratado como vilão a ser alongado, nem como músculo a ser fortalecido indiscriminadamente.
Ele é parte de um sistema de estabilidade profunda que depende de:
-
equilíbrio de tônus
-
coordenação neuromuscular
-
alinhamento estrutural
-
integração respiratória
Para instrutores de Yoga, isso significa orientar a prática para o centro — não para os extremos.
Flexibilidade é valiosa.
Mas estabilidade é fundamental.
ASSOCIADOS: vocês encontram um material complementar em sua área exclusiva.
A ALIANÇA LHE CONVIDA A SE APRIMORAR, SEMPRE!
Referências
Andersson, E. A., et al. (1995). Intramuscular EMG from the psoas major muscle. Spine.
Hodges, P. W., & Richardson, C. A. (1996). Inefficient muscular stabilization of the lumbar spine associated with low back pain. Spine.
McArdle, W., Katch, F., & Katch, V. (2015). Exercise Physiology: Nutrition, Energy, and Human Performance.
Santaguida, P. L., & McGill, S. M. (1995). The psoas major muscle: a three-dimensional geometric study. Journal of Biomechanics.
Standring, S. (2020). Gray’s Anatomy: The Anatomical Basis of Clinical Practice.